Velha guarda do Boavista, ídolo no Irã e aprendiz no Porto: as muitas histórias de Léo Pimenta

Veterano lembra causos da bola e longo período no Oriente Médio

Neste domingo, o modesto Boavista mais uma vez terá a oportunidade de fazer história no futebol do Rio de Janeiro. O clube pela segunda vez decide um título da Taça Guanabara e diante do mesmo adversário, o Flamengo, seu algoz em 2011. E a finalíssima tem um sabor a mais para um atleta em especial do time da Região dos Lagos: Leonardo Pimenta, jogador mais antigo do atual elenco do Verdão, como o clube é conhecido.

Afinal, o experiente meia-atacante de 35 anos chegou ao Boavista em 2007 e soma diversas passagens pelo clube em meio às idas e vindas do Oriente Médio, onde construiu grande parte da carreira. Atuou por anos no Irã e também nos Emirados Árabes.


"O Boavista é a minha casa. São várias idas e vindas. A porta sempre esteve aberta. Tenho um carinho imenso por todos. Uma família de verdade. Estou a todo o vapor para essa decisão contra o Flamengo, onde tenho certeza que faremos história. Sempre fui muito feliz e continuo sendo. Boavista campeão se Deus quiser", conta ele em entrevista exclusiva ao Blog De Primeira.

Revelado na base do Flamengo, Léo Pimenta deixou o país cedo. No início dos anos 2000, chamou a atenção em um torneio amador e, mesmo vinculado ao Rubro-Negro, aceitou um convite para se transferir à Portugal. Foi defender o modesto Vilanovense e, em 2002, acabou vendido ao Porto.

No gigante português, atuou grande parte do tempo pelo time B do Porto, mas teve, no entanto, a oportunidade de conviver com o elenco comandado por José Mourinho que venceu a extinta Copa da Uefa de 2002/2003 e também a Liga dos Campeões de 2003/2004.


"Fiquei no Porto por dois anos. Mesmo atuando na equipe B, eu treinava junto com todos, o que nos motivava. O José Mourinho, inclusive, depois do título nacional, usou vários jogadores da equipe B. Vi de perto as conquistas da Copa da Uefa e da Champions League. Uma realidade totalmente diferente. Momentos marcantes e, sem dúvida, um aprendizado todos os dias. Um momento de crescimento profissional e pessoal. Foi inesquecível", lembra Léo.

Depois de deixar o Porto, o brasileiro defendeu o Vitória de Setúbal na temporada 2005/2006. Lá, conviveu com os salários atrasados e foi então que chegou ao Boavista pela primeira vez, em 2007, quando o clube do Rio de Janeiro disputava pela primeira vez a elite do Campeonato Carioca.

"Eu fui para o Vitória de Setúbal, onde passei por momentos financeiros difíceis por conta de atraso nos salários. E aí veio a decisão de voltar ao Brasil para enfim ter a minha primeira experiência como profissional. Aos 24 anos, cheguei ao Boavista para disputar o Carioca com um contrato de quatro meses. No final do estadual, meu contrato se estendeu para cinco anos". 


Após o estadual daquele ano, Léo Pimenta começou a ser emprestado pelo time de Saquarema e, após uma breve passagem pelo Avaí, iniciou a sua aventura no Oriente Médio. Se transferiu para o Irã e acertou com o Sanat Naft, clube que fica em Abadan, ao sul do país e que foi fundado sob influência da seleção brasileira. 

No Irã, Léo ainda defendeu outros dois clubes ao longo da carreira: o Gostaresh Foolad e o Tractor Club, um dos mais tradicionais do país.

"A primeira impressão do Irã foi logo o choque de cultura. Todos, porém, são muito apaixonados por futebol, o que fez ficar fácil a adaptação. Passei por momentos engraçados, como incidentes nas ruas com fãs e até ficar detido no aeroporto por usar bermuda, quando só poderia usar calça. Coisas maravilhosas que o futebol nos proporciona. Foram muitos momentos", recorda Léo, que guarda com carinho um dos episódios mais marcantes vividos por lá.

"Fui convidado a visitar um lar de crianças abandonadas. Chegando lá, tinham crianças que estavam usando minhas fotos, camisas, tinham meus bonecos. Usavam e diziam que o momento mais feliz era quando me viam jogando na TV. Por meio do futebol poderiam esquecer que eram crianças sem pais. Enfim, aquilo sempre mexeu comigo e prometi a mim mesmo que, depois daquele dia, teria que levar emoção e alegria a todos que me vissem jogar". 


Foi no Tractor Club, inclusive, onde Léo Pimenta também encarou um dos maiores apertos da carreira e da vida. Durante um jogo do campeonato nacional, marcou um gol e quase arrumou um problemas daqueles com o governo iraniano. E, anos depois, conta com muito bom humor a história.

"No Tractor, que fica no cidade de Tabriz, fronteira com a Turquia, o pessoal de lá é um pouco revoltado com o governo. E, como eu era um ídolo da galera, uma vez me pediram para eu fazer um gol e, na comemoração, fazer um sinal com os dedos da mão simbolizando um coiote, que era um dos símbolos da torcida.

Assim foi feito, e o estádio veio abaixo. Em seguida, eles fizeram um barulho. No fim do jogo, me jogaram para o alto e tudo, e o país inteiro vendo pela TV. Sem saber de nada, fui para casa depois do jogo e, horas depois, o diretor bateu na minha porta com dois policiais dizendo que, se eu fizesse aquilo de novo, eu seria preso. O símbolo significava um protesto contra a capital Teerã, contra o governo. Nunca mais quis saber de coiote", recorda.


Além dos clubes iranianos, Léo Pimenta ainda defendeu times dos Emirados Árabes no Oriente Médio: Hatta Club, Al Khaleej e, mais recentemente, o Al Hamryiah.

Em 2017, Léo Pimenta voltou ao Boavista e foi titular durante quase toda a campanha do título inédito da Copa Rio. Ainda sem a pretensão de parar, o jogador ainda crê em novos desafios daqui para frente.

"São 18 anos como profissional. Desde os sete anos nessa vida. Com certeza o melhor ainda estar por vir. Alegria sempre e sempre", encerra.

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