Início no Timão, feitos na Bulgária e "tensão" em Israel: um bate-papo com Lucas Sasha

Volante de 28 anos defende o Ludogorets desde 2015

Por Mateus Marinho

Lucas Pacheco Affini, ou simplesmente Lucas Sasha. O Blog De Primeira encontrou, na Bulgária, esse paulista de 28 anos, que está desde 2015 no Ludogorets Razgrad, onde já venceu três vezes o campeonato búlgaro e disputou a Champions League.

Nesta nova temporada, sob o comando do técnico Paulo Autuori, o clube terá pela frente a fase de grupos da Liga Europa - está no Grupo A, ao lado de AEK Larnaca (Chipre), Bayer Leverkusen e Zurich (Suíça). E o brasileiro revelou a grande meta da equipe na competição do Velho Continente.

“Nosso primeiro objetivo é passar de fase. O Autuori está aqui com toda a comissão dele, e o trabalho tem sido espetacular. Vamos trabalhar para passar de fase, nosso grupo é difícil, mas vamos batalhar. Queremos ir o mais longe possível no mata-mata”, conta.

Lucas Sasha chegou ao  Ludogorets em 2015. O clube tem dominado completamente o futebol local, que nas últimas décadas conviveu com diversos problemas financeiros. Tanto que o time venceu as últimas sete edições do Campeonato Búlgaro. Na temporada 2016/2017, a equipe conseguiu, inclusive, passar pelos playoffs e chegou à fase de grupos da Champions League na mesma chave de PSG, Arsenal e Basel - terminou na terceira colocação.


“A pré-Champions já é um sonho. A fase de grupos então, nem se fala. Na pré, foram seis jogos, três times para a gente eliminar. Quando conseguimos a classificação, foi algo sem explicação. Ver o sonho de moleque se realizando, de quando a gente jogava vídeo game... E, naquele momento, a gente estava ali, foi demais. Quando aquela música toca é de arrepiar qualquer um. Foi inesquecível”, lembra.

No Ludogorets, Lucas Sasha atua ao lado de outros nove brasileiros: Renan, Rafael Forster, Cicinho, Natanael, Gustavo Campanharo, Wanderson Farias, Marcelinho, Junior Brandão e João Paulo. Por lá, ainda convive com algumas diferenças culturais.

“Sempre fui para países onde a escrita é muito diferente e isso atrapalhou um pouco, principalmente na hora de comprar as coisas. Mas uma situação que eu passei aqui na Bulgária foi bem engraçada. Aqui as pessoas acenam com a cabeça para dizer “sim” e “não” ao contrário. Sim é não e não é sim. É como se você estivesse no Chaves, onde ele faz tudo ao contrário. No início eu demorei um pouco para pegar o jeito, passei por algumas situações engraçadas por conta disso”, conta ele, aos risos.


O INÍCIO

O começo da carreira de Lucas foi o melhor possível. Base do Corinthians e campeão da Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2009 numa das gerações que mais prometiam frutos ao time principal. Mas a subida para os profissionais não foi como ele esperava. Sem chances, acabou se transferindo ao Grêmio Barueri.

“A nossa geração ganhou tudo na base. Mas, infelizmente, demos azar, porque, quando subimos, o time estava voltando da Série B, e os investimentos foram muito fortes. Com isso, os jovens da base não tiveram tantas chances. Agradeço muito ao Corinthians, entrei lá um menino e saí de lá um homem”.

No Grêmio Barueri, Sasha teve a oportunidade de jogar o Campeonato Paulista e a Série A do Brasileirão de 2010. Ao fim da temporada, o time foi rebaixado para a Série B, e ele seguiu rumo à Europa. O destino foi o Catanzaro, da terceira divisão italiana.


“Foi um tiro no escuro. Fiquei na Itália uns quatro, cinco meses. Joguei apenas um jogo no Catanzaro. O mais importante para mim foi conseguir o passaporte italiano, a dupla cidadania, que me ajuda muito aqui na Europa. E essa mudança para um país novo me mostrou que eu consigo me adaptar fácil em determinadas situações e isso é bom”.

Depois do pouco tempo na Itália, Sasha retornou ao Brasil para a disputa do Campeonato Paulista Séria A2 pelo São José. Foram 10 partidas pelo clube e novamente a Europa o chamou. Dessa vez, a Bulgária foi o destino. Foi jogar no CSKA Sofia.

Ele marcou seu primeiro gol como jogador do CSKA pela Europa League contra o Slavia Sofia, em 2012. Em outubro do mesmo ano, deu assistência para o gol de empate e marcou o segundo contra o Ludogorets Razgrad, numa vitória por 2 a 1, na casa do adversário, em jogo válido pela Taça da Bulgária. Durante o verão de 2013, o CSKA passou por uma crise administrativa e financeira, fazendo com que Sasha começasse a procurar um novo clube.

O destino, então, foi o Hapoel Tel Aviv, de Israel. E a chegada ao país cercado de conflitos com a Palestina foi melhor do que imaginava.


“Jogar lá foi uma surpresa muito positiva. Eu fui morrendo de medo, por conta de tudo que a gente vê na TV e internet. Mas não é isso tudo que falam. É uma cultura muito diferente, e eu respeito muito, valorizo demais a cultura e a religião deles. Aprendi muito lá. Passei a amar aquele país e pretendo um dia voltar", recorda Sasha, que ainda lembra da tensão vivida na chegada ao país.

“Passei por uma situação complicada lá no início. Quando tocava a sirene anunciando que tinha uma bomba ou míssel chegando, para gente que é de fora é assustador. Mas para eles é normal. Quando tocava a sirene o pessoal nem corria, todo mundo continuava a agir normalmente. No início eu fiquei bem assustado, depois acostumei. Mas não é esse fogo cruzado que todo mundo pensa que é”.

Depois de sete anos na Europa, Lucas ainda pretende um dia voltar ao Brasil. Vinculado ao Ludogorets até junho de 2019, ele afirma, no entanto, que um retorno ainda não é a prioridade no momento.


“Eu queria um dia poder voltar para o Brasil, poder jogar a Série A de novo. Mas, no momento, a minha carreira está muito desenhada na Europa, tenho contrato com o Ludogorets até o final dessa temporada e vou cumprir. Eu ainda pretendo retornar à Israel um dia. Mas Deus sabe de todas as coisas, a gente faz planos, e ele vem e muda tudo”, encerra.

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