Vida no Catar, carinho pelo Palmeiras e os planos para o futuro: um bate-papo com Maurício Ramos

Zagueiro de 33 anos defende atualmente o Al-Sailiya

Por Mateus Marinho


Conhecido da torcida do Palmeiras, onde foi campeão da Copa do Brasil em 2012, Maurício Ramos tem rodado no exterior nos últimos anos: jogou nos Emirados Árabes, na Turquia e, mais recentemente, chegou ao futebol do Catar para defender o Al-Sailiya.

E o defensor bateu um papo exclusivo com o Blog De Primeira. O brasileiro contou como tem sido a experiência na terra da próxima Copa do Mundo, em 2022.

“O país está bem preparado e buscando se organizar cada dia mais para realizar a Copa e receber bem os torcedores de todas as partes do mundo. O futebol aqui no Qatar conta com grandes jogadores. A presença de público ainda é pequena, a não ser em dias de clássicos, como entre Al-Sadd e Al-Rayan, que são times tradicionais e lotam estádios. Mas o clima é de muita expectativa”, revela o zagueiro.

Diante da baixa procura pelo esporte, o governo local tem desenvolvido ações no país. Doha, por exemplo, tem o complexo Aspire, um dos maiores centros esportivos no mundo, reunindo profissionais de diversos país. Mas, de acordo com Maurício Ramos, são as competições exóticas que mais despertam a paixão dos moradores locais.


“Aqui eles incentivam muito o futebol, o handebol, que é forte, o vôlei, enfim. E o que mais gostam é a corrida de camelos, que é muito tradicional, além de amar cavalos e falcões. O povo ama esporte e vejo que muitos também praticam, gostam de caminhar. As pessoas aqui no Qatar se preocupam com a parte física, com a saúde, algo diferente de Dubai (Emirados Árabes), por exemplo, onde já se tem um alto índice de obesidade, com as pessoas indo mais ao shopping para se alimentar”.

Maurício Ramos chegou ao Al-Sailiya na última janela de transferências e soma 11 partidas desde então. O clube atualmente é o terceiro colocado na Liga do Catar, que tem como grande astro o espanhol Xavi, ídolo do Barcelona e estrela do Al-Sadd, vice-líder do campeonato nacional.

Segundo Maurício, a adaptação tem sido tranquila graças à sua experiência no futebol dos Emirados Árabes, entre 2013 e 2016. Para ele, inclusive, a alta temperatura no país não será um problema para os jogadores durante o Mundial do Catar.


“Minha adaptação foi tranquila, pois joguei três temporadas em Sharjah, em Dubai. Então a língua é a mesma e aprendi bem o inglês, consegui me virar muito bem. Para a minha família também foi ótimo justamente por essa passagem por Dubai, onde aprendemos muitas coisas. Quanto ao clima, de junho a setembro é muito quente, entre 45 e 50 graus. A Copa do Mundo será disputada em novembro e, nesse mês, o clima é bem gostoso, ficando entre 22 e 25 graus, como está agora", conta Maurício, que ainda falou sobre o atual momento do clube na Liga do Catar.

“Meu time está bem na competição, graças a Deus, na frente de muitos grandes times daqui. Temos chances de conquistar o título, mas há dois times muito fortes, como o Al-Duhail e o Al-Sadd, do Xavi e do Gabi, que são excelentes jogadores. Meu time tem atletas locais e quatro estrangeiros. Nós estamos fazendo uma boa campanha e esperamos seguir assim. Nosso maior rival é o Al-Arabi, que também é um time tradicional. Nós já ganhamos deles e esperamos vencê-los novamente, quem sabe conseguindo uma classificação para a Champions League da Ásia”.

Maurício Ramos chegou ao Oriente Médio em 2013 após anos defendendo o Palmeiras. A sua primeira experiência no exterior foi com a camisa do Al Sharjah. Por lá, teve que se virar para aprender a se comunicar e a conviver com a cultura local.


“Quando cheguei em Dubai não sabia falar nada de inglês. Fazia mímica para tentar me comunicar. Em restaurantes, eu pensava que estava pedindo uma comida e vinha outra. Tinha que me virar. Mas aos poucos fui me adaptando e aprendendo, inclusive, a cultura árabe. Um dia cheguei ao clube de Kandora, que é a roupa que parece uma túnica. Cheguei no clube vestido assim, e os jogadores acharam o máximo pelo fato de buscar entender a cultura deles.

Aqui em Doha, quando você tira carteira de motorista, tem um filho, compra um carro novo, geralmente se dá um presente. Agora que tirei a minha identidade, dei um Haruf de presente para o pessoal. É um prato de arroz com cordeiro assado e todo mundo come", lembra.

CARINHO PELO PALMEIRAS E O FUTURO

Antes de desbravar no exterior, Maurício Ramos defendeu o Palmeiras por quase cinco temporadas. Apesar de jogar em um período conturbado do clube paulista, chegou a ser campeão da Copa do Brasil em 2012 sob o comando de Luiz Felipe Scolari.

“Foi uma conquista histórica, de forma invicta. Ser campeão com a camisa do Palmeiras não tem preço. É algo que ficará marcado para sempre na minha vida. Nós tínhamos um grupo muito bom e contávamos com a experiência do Felipão, que é um vencedor e também um paizão. As semifinais contra o Grêmio foram muito disputadas, assim como a final contra o Coritiba, mas trabalhamos muito e deixamos tudo em campo nesses jogos para conquistar o título”.

Aos 33 anos, Maurício Ramos não pensa em retornar ao Brasil. Aliás, ele revelou apenas que esteve perto de voltar ao futebol brasileiro na temporada passada, quando chegou a negociar com o Cruzeiro.


“Penso em encerrar minha carreira fora do Brasil e, se tiver a oportunidade de encerrar aqui no Catar, seria bom. Muito pela experiência de vida, a segurança, a educação da minha filha Yasmin. Ela fala muito bem inglês, está aprendendo francês, alemão... Na minha infância eu não tive esse investimento educacional, digamos assim, e vejo isso como fundamental para ela. Recebi algumas propostas do Brasil, como a do Cruzeiro no ano passado, e não acertamos somente porque eles me ofereceram um contrato de seis meses, e eu gostaria de assinar pelo menos por uma temporada”.

A continuidade no Oriente Médio, entretanto, só seria interrompida caso surgisse uma proposta dos clubes que marcaram a sua carreira.

“Se for da vontade de Deus encerrar a minha carreira no Brasil, também seria muito bom. Lá onde tudo começou, no Iraty ou no Londrina, com o Sérgio Malucelli. Gostaria mesmo de encerrar defendendo o Palmeiras, mas sei que pela idade é mais difícil. Tenho respeito, admiração e um carinho muito grande pela torcida do Palmeiras", diz Maurício, que ainda revelou os planos para quando decidir pendurar as chuteiras.

"Penso também em estudar para ser treinador ou dirigente, poder passar a experiência que obtive nas diversas culturas para os novos jogadores”, finaliza ele

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