Título com a Seleção, "sufoco" na Sérvia e sucesso na Ásia: as histórias do andarilho Edgar

Atacante de 32 anos atualmente defende o Daegu, da Coreia do Sul



Edgar tem 32 anos e uma bagagem repleta de histórias. Afinal, desde que deixou o Brasil em 2007, o atacante já rodou por sete países no exterior: Portugal, Sérvia, Emirados Árabes, Turquia, Catar, Tailândia e Coreia do Sul.

Atualmente, o jogador defende e brilha pelo Daegu, da primeira divisão sul-coreana. No início de março, por sinal, o brasileiro marcou dois gols na vitória do clube por 3 a 1 sobre o badalado Guangzhou Evergrande, da China, que conta com Paulinho e Anderson Talisca. A partida foi válida pela Liga dos Campeões da Ásia.

Em entrevista exclusiva ao De Primeira, o atacante comemorou o bom momento na Coreia do Sul. O clube é o líder do Grupo F na Champions, com seis pontos, à frente do Guangzhou Evergrande, do Sanfrecce Hiroshima e do Melbourne Victory.


"Estamos numa fase muito boa. Vem desde a conquista da FA Cup da temporada passada e estamos conseguindo manter. Começamos muito bem na Liga dos Campeões com adversários fortes e, como o Daegu  é o caçula na competição, ninguém esperava que iríamos ter esse desempenho que estamos mostrando. O importante é continuar fazendo grandes jogos e conquistando vitórias. Eu acho que é difícil pensarmos em título, mas temos que pensar primeiro em classificar, que já seria ótimo para o clube, e depois em tentar chegar o mais longe possível", disse o brasileiro, que soma cinco gols na temporada até aqui.

Edgar despontou com a camisa do Joinville e, em 2006, acabou negociado com o São Paulo. Foi campeão brasileiro pelo clube, mas teve poucas oportunidades e, no ano seguinte, acabou negociado com o Beira-Mar, de Portugal.

Foi nesse período que acabou convocado para disputar o Sul-Americano sub-20. O atacante foi campeão do torneio ao lado de nomes como Cássio, Fágner, Lucas Leiva, Willian, Luiz Adriano e Alexandre Pato. Naquela competição se destacaram também nomes como Edinson Cavani, Arturo Vidal e Ángel Di María.


"Foi um Sul-Americano muito legal. Ainda converso e tenho amizade com alguns dos jogadores que estavam naquele grupo. Lembro que jogamos a primeira fase numa cidade que era fronteira com o Brasil. Ficávamos no Brasil e jogávamos no Paraguai. Então, quando íamos para os jogos, tínhamos o apoio da torcida brasileira, só atravessávamos a rua e levávamos as vaias da torcida paraguaia. Eu lembro que eu usava tranças no cabelo e fiz uma aposta com os meninos, que, se fossemos campeões, eu iria tirar as tranças. Felizmente, logo após a medalha de ouro, lá estava eu tirando as tranças e cortando o cabelo", recorda, aos risos.

Pouco tempo depois do Sul-Americano, Edgar se transferiu para o Porto, onde também acabou não tendo muito espaço.

Em 2008, o atacante foi contratado pelo Estrela Vermelha, tradicional clube da Sérvia. Foi lá, inclusive, onde o brasileiro passou um dos maiores apertos da carreira.

"Uma experiência não muito legal foi na Sérvia com a torcida do Estrela Vermelha, de Belgrado. Perdemos uma classificação para a Liga Europa, os torcedores invadiram o CT e bateram em vários jogadores. Tive sorte que não bateram nos jogadores estrangeiros dessa vez", lembra.

A passagem pela Sérvia durou muito pouco, e Edgar acertou com o Vasco em 2009. Depois, retornou à Portugal para defender Nacional e Vitória de Guimarães antes de iniciar a sua aventura na Ásia.


Ele ficou três temporadas no Shabab Dubai, dos Emirados Árabes, onde virou ídolo e desandou a fazer gols. Depois, ainda vestiu a camisa do Al Wasl.

"Eu tenho um carinho enorme por Portugal, que foi onde eu consegui me firmar na minha profissão. Mas eu acho que eu vivi o meu melhor momento profissional e fora do campo também nos Emirados Árabes, em Dubai, um lugar incrível, onde vivi bons anos e fui muito feliz", garante.

Edgar trocou os Emirados Árabes pelo Adanaspor, da Turquia. Depois, voltou à Ásia para defender o Lekhwiya, do Catar, e o Buriram United, da Tailândia, antes de acertar com o Daegu, da Coreia do Sul, em 2018.

Nesse período, viveu histórias curiosas. Uma delas, foi quando esteve na Arábia Saudita.


"Fomos jogar contra uma equipe na Arábia Saudita. Nós saímos para andar em volta do hotel, e o meu companheiro de time saiu de bermuda. Acabamos sendo parados, e a polícia religiosa chamou a nossa atenção, pois as nossas roupas eram erradas para a religião deles", recorda o brasileiro.

Na primeira temporada pelo Daegu, Edgar rapidamente caiu das graças da torcida e marcou 11 gols em 21 jogos. Além disso, fez parte do título da copa nacional.

"Tenho a minha família comigo. No início foi um pouco difícil de se adaptar, mas agora já estão todos bem. Em relação ao futebol, a K-League é um dos campeonatos mais fortes da Ásia. Pode não ser o milionário campeonato chinês, nem o tradicional e sempre muito forte campeonato japonês, mas é uma liga muito intensa e com equipes equilibradas. Aqui o que me chama muita atenção é o respeito que os mais jovens têm com os mais velhos, é impressionante. Sempre ouvem e tentam fazer tudo que os mais velhos falam", afirma.

Rodado e com muita história para contar, Edgar se considera um daqueles andarilhos do futebol. Lamenta apenas não ter tido o reconhecimento no Brasil.


"Acho que já posso me considerar um andarilho da bola, sim. Infelizmente, não tive e não consegui ter o espaço e a visibilidade que tive em outros países aí no Brasil. Tive que construir a minha carreira fora. Culturalmente é incrível, pude conviver com diferentes povos e passar por diferentes situações que nos fazem crescer muito como pessoa. Tenho dois filhos que nasceram fora do Brasil e, quando temos a nossa família junto, já temos que pensar diferente antes de aceitarmos alguns desafios, pois as crianças amam o Brasil e sentem muita falta. Mas, ao mesmo tempo, sabem que todo o sacrifício é por eles, para que tenham uma vida melhor no futuro".

Com mais três anos de contrato com o Daegu, Edgar admite a vontade de voltar a atuar no futebol brasileiro para, quem saber, também escrever o seu nome por aqui.

"Eu ainda tenho vontade de jogar no Brasil. Só que eu consegui solidificar o meu nome aqui no mercado asiático. Então, tenho que tentar aproveitar o máximo, mas não há nada como você jogar no teu país", encerra.

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