Roger Guerreiro recorda gol histórico pela Polônia e conta sobre aventura no futebol de várzea

Ex-jogador do Corinthians e do Flamengo bateu um papo com o De Primeira

Por Lucas D'Assumpção

Um fato comum que se instaurou no futebol mundial nas últimas décadas é a naturalização de atletas. Temos diversos exemplos de jogadores brasileiros que defenderam outras nações em competições internacionais. É o caso de Roger Guerreiro.

O ex-jogador do Flamengo e do Corinthians deixou o Brasil, viveu o auge na Polônia, se naturalizou pelo país e fez história. Em 2008, ele se tornou o primeiro jogador a marcar um gol pela seleção polonesa na Eurocopa, no empate por 1 a 1 com a anfitriã Áustria, pela fase de grupos - este acabou sendo o único gol dos poloneses, eliminados na primeira fase, naquela Euro.

E ele recordou o feito em entrevista exclusiva ao De Primeira.


“Para mim foi muito importante jogar uma Eurocopa. Não só a Eurocopa, mas todos os jogos depois. Joguei as Eliminatórias para a Copa de 2010 e para mim foi muito importante. O gol foi muito especial, o primeiro gol do país na história de uma Euro. Naquele exato dia fazia seis meses que meu pai havia falecido. Então, muitos fatores contribuíram para aquele dia e aquele gol ficassem para história. Não só na minha história, mas na história do país, da seleção da Polônia, e eu sou muito grato a Deus por ter me proporcionado esse momento”, contou.

A ligação de Roger com a Polônia começou no ano de 2006. Após defender o Juventude, ele chegou ao Légia Varsóvia, um dos clubes mais tradicionais do país. No ano de sua chegada, participou da conquista do oitavo campeonato polonês.

Com a camisa da equipe, o brasileiro marcou 21 gols em 125 jogos. O sucesso dele pelo clube polonês, é claro, chamou atenção do treinador da seleção do país, que à época era comandada por Leo Beenhakker.

“O convite para eu jogar pela seleção partiu do próprio treinador da seleção, foi um pedido pessoal dele, o Leo Beenhakker. Ele consultou meu treinador no Légia, que na época era o Urban, um polonês que jogou muito tempo na Espanha. Então, eles vieram me consultar sobre a possibilidade, onde tive duas reuniões com o próprio treinador da seleção. Ainda queria saber se eu tinha esse desejo e se era viável. A gente conversou e, graças a Deus, deu tudo certo, e eu acabei jogando 26 partidas pela seleção, com quatro gols, algumas assistências. Sou muito grato por tudo que aconteceu comigo”, explicou ele, que ainda contou sobre a recepção dos companheiros de seleção na sua primeira convocação.


“Eu fui muito bem recebido. Eles me receberam muito bem, a adaptação foi rápida e, anos depois, eu fui saber que, antes da minha ida para a seleção, o treinador consultou os capitães sobre a possibilidade de me incorporar. E a resposta deles foi que, se eu fosse para a seleção para ser um jogador de grupo, para somar junto com eles, eu seria bem-vindo. Mas, se eu tivesse pensando só no lado individual, no lado de ter um passaporte europeu, coisa do tipo, aí não seria bem-vindo”, recordou.

Após a Eurocopa, Roger continuou sendo chamado para a seleção polonesa, disputou as Eliminatórias da Copa do Mundo, mas o país acabou ficando de fora do Mundial de 2010, na África do Sul.

“Com certeza faltou uma Copa do Mundo. Como falei anteriormente, disputei toda uma eliminatória para a Copa de 2010, mas, infelizmente, a gente não conseguiu a classificação para fechar com chave de ouro minha passagem pela seleção. Só faltou mesmo jogar uma Copa do Mundo”, lamenta. 

PASSAGEM NO FLAMENGO

Revelado pelo São Caetano-SP, Roger Guerreiro viveu outra grande fase da carreira no Flamengo. Ele chegou ao clube carioca em 2004 após uma passagem turbulenta pelo Corinthians, onde havia atuado em 2003.


Pelo Flamengo, Roger foi campeão carioca em 2004 e ficou marcado por dois gols decisivos na histórica vitória de virada por 4 a 3 sobre o Fluminense, na final da Taça Guanabara. Jogo, aliás, que deu um susto daqueles para o ex-lateral.

“Realmente foi uma fase ótima lá no Flamengo. Depois de ter uma saída meio conturbada do Corinthians, fui recebido muito bem no Flamengo e tiveram, sim, histórias que marcaram bastante. Eu conto bastante a do gol da final da Taça Guanabara, que foi aniversário do meu pai e tal. Depois ele passou mal e teve que ir par o hospital”, relatou Roger, que ainda recorda como foi a sua recepção de gala no Flamengo.

"Cheguei ao Rio para assinar o contrato, e o Júnior era o diretor. Foi uma honra, um prazer muito grande em ser recebido pelo Júnior, que é um ídolo de todos nós, principalmente na época dele. Era da minha posição, lateral esquerdo. E aí assinei o contrato lá no Flamengo, e o Júnior me levou direto lá para o CFZ, onde o Flamengo estava treinando. O Zico estava lá, que também me recebe e me dá boas-vindas. Então apertar a mão do Zico foi uma honra muito grande''.

APERTOS NA GRÉCIA

Depois de deixar o Flamengo e viver anos na Polônia, Roger foi se aventurar na Grécia. Acabou sendo contratado pelo AEK, de Atenas. No país histórico, Guerreiro teve uma boa passagem, ficando de 2009 ate 2013, com 94 partidas e 4 gols. Levantou, inclusive, o título da Copa da Grécia na temporada 2010/2011.

Mas, como nem tudo são flores, o brasileiro contou alguns episódios negativos que passou por lá.


“Todas as torcidas lá são muito apaixonadas e violentas. São muitos conflitos entre torcidas, que atiram rojões no campo. Aconteceu uma situação que foi bem famosa. Um jogador do meu time na época, Katidis é o nome dele, fez um gesto relacionado a nazismo. Aí deu uma repercussão muito grande lá depois que ele fez esse gol, essa comemoração. Teve um outro jogo onde nosso zagueiro fez um gol contra e, logo em seguida, a nossa torcida invadiu o campo, e a gente teve que sair correndo para o vestiário. Enfim, passei algumas situações lá de aperto com torcida, mas, graças a Deus, nunca fui agredido, nem nada do tipo. Sempre a raiva deles era relacionado ao time, a diretoria, que não honrava os compromissos, não pagava o salário... Nunca passei uma situação específica comigo”. 

Em 2017, ao ficar sem clube, Roger Guerreiro começou a fazer corridas como motorista de Uber. Foi então que o ex-jogador deu uma entrevista à época para o UOL, onde explicava o motivo de ter escolhido a profissão na época.

“Sobre essa entrevista, distorceram ela um pouco no início, depois acabei dando outras entrevistas e expliquei melhor tudo. Realmente eu fazia esse tipo de trabalho esporadicamente, quando tinha algum tempo livre. Cadastrei-me no aplicativo e fazia algumas corridas para complementar a renda, mas não que eu tinha virado um motorista de aplicativo, entendeu? Nas horas vagas saía, como deve ter muita gente que faz isso, mas comigo eu tive um fã que fez uma selfie, jogou na internet e viralizou. Mas hoje não tenho mais o carro cadastrado. Para mim não seria problema nenhum continuar fazendo”, explicou. 



AVENTURA NA VÁRZEA

Hoje aos 36 anos, Guerreiro mora em São Paulo e contou como tem sido a rotina após ter pendurado as chuteiras em 2017, no Rio Verde-GO. Ele, inclusive, tem atuado no futebol de várzea, super tradicional por lá. (Veja um gol dele na várzea no vídeo acima).

“Estou com uma escolinha de futebol. Eu dou treinamento funcional para adultos também. Hoje esse é o meu trabalho. O Uber eu fiz logo que me aposentei, nos horários específicos, nos horários esporádicos para complementação de renda. Mas hoje tenho uma escolinha, né? Com 70 crianças, faço um crossfit para adultos e, nos finais de semana, jogo o futebol de várzea aqui em São Paulo. A várzea é muito forte e, muita das vezes vezes, é mais interessante do que jogos profissionais. A gente é remunerado por jogo e daí vem o complemento da renda”, finalizou.

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