Cada vez mais ídolo: Zico fala sobre sucesso agora como diretor do Kashima Antlers

Galinho é dirigente do clube japonês, que briga pelo título de três competições

Por Juan Andrade

A idolatria da torcida do Kashima Antlers por Zico parecia já ter atingido um nível máximo. Afinal, como jogador, ele revolucionou não só o clube, como também todo o futebol japonês durante o período em que atuou no país, entre 1991 e 1994.

Mas foi então que em julho de 2018 o Galinho recebeu um convite para retornar, pela segunda vez, ao Kashima como dirigente. O clube vivia uma crise, com maus resultados, mas bastou o retorno do craque para tudo mudar e para o ídolo brasileiro cair ainda mais nas graças do torcedor.

Logo de cara e com a casa organizada por Zico, o Kashima venceu, pela primeira vez na sua história, a Champions League da Ásia em 2018. Já neste ano, o clube voltou a brigar pelo título da J-League e de outras duas copas nacionais.

Em entrevista exclusiva ao De Primeira, ele contou como foi o seu retorno ao clube e o seu papel no processo de recuperação da equipe na temporada passada.

"Eu, quando cheguei aqui, procurei saber, devido ao Kashima ter um time bom, o motivo de estarem naquela situação. Procurei dar um pouco de ânimo, principalmente aos jogadores, comissão técnica e também analisar as coisas que estavam acontecendo. Era mais falta de confiança mesmo do que propriamente qualquer possibilidade de erro tático. Os jogadores não estavam bem individualmente, fisicamente. Isso estava complicando tudo. Como eu já tinha passado por essa situação aqui mesmo no Kashima, não foi difícil de detectar", disse Zico.


Além do papel importante nos bastidores, Zico também foi o responsável por indicar, logo após a sua chegada, a contratação do meia Serginho, ex-Santos e América-MG, que tornou-se um dos grandes protagonistas no atual elenco do Kashima Antlers.

O clube ficou com a taça da Champions após vencer, na grande decisão, o Persepolis FC, do Irã, por 2 a 0 no agregado, com gols do próprio Serginho e do volante Léo Silva, ex-Cruzeiro e Botafogo. No Mundial de Clubes, o Kashima eliminou o Chivas, do México, nas quartas de final e só foi eliminado pelo gigante Real Madrid.

"Os jogadores começaram a se cuidar fora do campo, a treinar bem, com dedicação, por ser um time muito bom tecnicamente. Eu falei para não desperdiçar a chance de marcar história no Kashima nesse grande campeonato, que era o único que faltava ao clube, porque a gente estava numa condição boa de conquistar. Graças a Deus deu tudo certo até o final do ano, e a gente conquistou a Copa dos Campeões da Ásia", conta.

O sucesso nesse retorno de Zico ao Japão não para por aí. Afinal, nesta temporada, o Kashima Antlers manteve a boa fase e voltou a brigar pelo título do Campeonato Japonês. O clube é o maior vencedor da J-League - com oito canecos -, mas não conquista o troféu desde 2016. Está na vice-liderança, apenas um ponto atrás do FC Tokyo.

Além disso, o Kashima está nas semifinais da J-League Cup, nas oitavas da Copa do Imperador e só foi eliminado nesta semana da Champions da Ásia pelo Guangzhou Evergrande, da China, pelo critério do gol fora de casa - empatou por 0 a 0 fora, mas cedeu a igualdade por 1 a 1 em casa.


"Para esse ano, a gente perdeu alguns jogadores para a Europa, mas o importante é que a base e a comissão técnica foram mantidas. Até o momento, os resultados estão sendo muito bons. Estamos disputando três competições, com todas elas com chances de conquistá-las", afirmou o Galinho.

TORCIDA DE LONGE

Maior ídolo da história do Flamengo, Zico tem conseguido acompanhar o clube carioca, apesar da distância. Ele, inclusive, elogiou o trabalho do técnico português Jorge Jesus, que chegou ao Rio de Janeiro no meio do ano.

"Tenho acompanhado, sim. Às vezes não dá para ver os jogos devido ao horário. A maioria dos jogos do Flamengo a gente está na madrugada ou então no mesmo horário dos treinos, porque aqui o Kashima treina de manhã. Mas dá para ver os compactos, os gols, algumas coisas. O Jorge Jesus é um grande treinador, uma experiência muito grande. O importante é o trabalho do dia a dia. O que a gente nota é que os jogadores compraram a ideia dele, estão entendendo a ideia dele, estão fazendo o que ele quer. Teve um conhecimento muito grande do que é o Flamengo, do que representa o Flamengo. Por ter trabalhado nas duas maiores equipes de Portugal, lógico que o Flamengo tem esse mesmo status no Brasil. As mensagens que ele passa nesse sentido são sempre positivas. Além da forma de jogar, de conhecer o elenco. Acho que está tudo se encaixando. Trouxe jogadores que ele conhecia e se encaixaram bem", disse Zico, que também falou sobre o elenco montado pelo clube.


"Sem dúvidas, todos eles estão cumprindo o seu papel. Talvez, pela posição que jogue e pelos gols que faz, o Gabriel tem se destacado mais. É o artilheiro do Brasil no ano, do Brasileirão, tem feito muito gols, gols importantes, decisivos. Mas isso graças ao crescimento do Éverton Ribeiro, do Bruno Henrique, do Arrascaeta, do Gerson, que se encaixou muito bem no time, que a cada jogo melhora. A zaga equilibrou, tem dois laterais de nível de seleção, um zagueiro como o Rodrigo Caio, que também é jogador de seleção. O Diego Alves, de seleção, o Pablo Marí, que muita gente não conhecia e se encaixou bem, com aquela garra espanhola. Tem o Arão, que voltou a ser o Arão que a gente viu no Botafogo. Acho que todo mundo cresceu no projeto do Jorge Jesus e isso é fundamental. Acredito que fora de campo todos têm se cuidado. Os resultados apareceram, tomara que venham as conquistas.

O Flamengo lidera o Campeonato Brasileiro e, em outubro, terá pela frente a disputa da semifinal da Libertadores, grande sonho do torcedor rubro-negro. O clube vai encarar o Grêmio.

"O time, da forma como está jogando, como está se comportando no dia a dia, ganhando cada vez mais conjunto, confiança, lógico que tem todas as chances de ir para uma final depois de tantos anos. O Flamengo já teve bons times que jogaram a Libertadores, mas não foram felizes. Mas esse está se encaixando bem. Continuando assim, a possibilidade é grande de voltar a ser campeão da América".


O FUTURO

Aos 66 anos de idade, Zico não descartou voltar a ser treinador no futuro, mas admite que só voltará a comandar alguma equipe caso seja realmente uma oferta que lhe chame a atenção.

"Na vida a gente nunca sabe como vai ser no dia de amanhã. Aqui no Kashima eu não tenho pretensão nenhuma de ser técnico. Meu negócio é dar um suporte, mostrar a importância do clube, onde estão jogando, como tudo isso aqui foi criado, estar dentro das categorias de base, que têm dado muitos frutos para o Kashima. Hoje mesmo no elenco temos de oito a dez jogadores que saíram da base. Então isso é muito importante. Para eu voltar a ser técnico tem que ser algo muito vantajoso, muito significativo e atrativo para poder sair. Não é que eu esteja numa zona de conforto, porque as responsabilidades aqui também são muito grandes. Mas aqui a gente tem um conhecimento muito maior", disse o Galinho, que também prefere não fazer muitos planos para o futuro.

"Eu não faço mais planos. Eu agora trabalho e vivo o momento que estou, onde estou. Gostaria muito de estar com minha família, meus netos, mas a gente gosta do futebol, ama o futebol, vive isso. É procurar fazer o melhor onde estou, dar o meu máximo. Não tenho mais nada a acreditar, a querer, sonho, objetivo. É lutar para passar as coisas boas que aprendi na vida, passar isso para frente, para as pessoas que trabalham ao meu lado, os jovens. Estar sempre junto com meus filhos nas escolas de futebol que nós temos, a escola Zico 10, o centro de futebol lá no Rio, as copas que a gente realiza, a Copa Amizade Brasil-Japão, Copa Zico... Sempre tem que dar oportunidade para muita gente, de trabalho, de mídia. Sempre vivendo no futebol".

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