Conheça Marcos Pizzelli, o "andarilho" brasileiro que joga pela Armênia e sonha com a Euro

Meia de 35 anos é um dos maiores ídolos no futebol armênio

Por Juan Andrade

Em 2006, um convite chegou para mudar a trajetória de Marcos Pinheiro Pizzelli. Jogador do São Carlos-SP naquela ocasião, ele recebeu uma proposta para atuar no futebol da Armênia. Mas afinal, o que o então jovem sabia sobre a pequena ex-república da União Soviética, marcada por históricos conflitos ao longo das décadas? Quase nada.

Mesmo assim, o meia não hesitou em desbravar o país europeu. Uma decisão que se tornaria, tempos depois, a mais acertada da sua vida. Na Armênia, construiu carreira, aprendeu uma nova cultura, se naturalizou e passou a defender a seleção local. Em 2018, inclusive, foi eleito o melhor jogador armênio, superando Henrikh Mkhitaryan, hoje na Roma.

Atualmente, joga as Eliminatórias da Eurocopa e veste a camisa do Aqtobe, do Cazaquistão. E ele contou, em entrevista ao De Primeira, como foi o início de tudo na Europa.

"Um ex-jogador armênio foi para o Brasil em busca de jogadores jovens e relativamente baratos, pois o São Carlos era uma equipe nova, e nós tínhamos sido campeões da Série B do Campeonato Paulista. Isso chamou a atenção desse empresário, que assistiu alguns amistosos da nossa equipe. Com certeza era um destino bem duvidoso por não termos muita informação e nem ser um país forte no futebol. Mas era um país mais próximo da Europa Central, sendo que intenção era usar a Armênia para me projetar para outros países", lembra.


Pizzelli chegou à Armênia para defender o Ararat Yerevan. No começo, sofreu com a adaptação, mas aos poucos foi tornando-se um dos principais jogadores do país, apesar da "resistência" dos companheiros. O desempenho, aliás, rapidamente lhe trouxe a chance de vestir a camisa da seleção local.

"No meu primeiro ano eu fui mal, de muitos altos e baixos. No segundo ano, mudou tanto que, em 2007, fui o artilheiro do campeonato e já chamei a atenção, por ser meia e sair artilheiro. No terceiro ano, consegui manter o bom rendimento, e a seleção da Armênia estava passando por uma transição. Eles tinham muito jogadores em final de carreira. Ainda existia a possibilidade de se naturalizar com três anos. Fui bem recebido, a Armênia é um país pequeno e, na época, a liga tinha seis times. Por ter feito duas boas temporadas, o pessoal me ajudou muito. O primeiro ano sofri um pouco, os jogadores não gostavam dos estrangeiros, mas na seleção foi totalmente diferente. Confesso que eu tinha receio por ter sofrido no clube, mas foi realmente ao contrário".

Antes de chegar ao país, Marcos Pizzelli tinha poucas informações sobre a Armênia. Mas e você, o que sabe sobre a Armênia?


A Armênia é um pequeno país localizado entre a Europa e a Ásia e que conta com cerca de três milhões de habitantes. É reconhecida, também, pelas muitas riquezas milenares. Além disso, também é considerada como o primeiro Estado a reconhecer o cristianismo como religião oficial.

Ao longo da história, passou por conflitos sangrentos, como na Primeira Guerra Mundial, quando houve o genocídio armênio - estima-se que cerca de um milhão e meio de armênios foram mortos por ordens do governo otomano.

Depois, passou a fazer parte da União Soviética e tornou-se independente apenas em 1991. Apesar disso, vive em conflito desde 1991 com o vizinho Azerbaijão por conta da disputa pela região de Nagorno-Karabakh.

"A Armênia tem uma vasta história, muitas delas são tristes. Com certeza esse conflito com o Azerbaijão reflete no país e, infelizmente, na fronteira entre os países existem conflitos. Como é um país pequeno, é comum ter familiares ou conhecidos servindo o exército", conta Marcos Pizzelli, que ainda falou sobre o desenvolvimento do país nos últimos anos.


"Comparada com a Europa Central e o Leste Europeu, a Armênia é um país muito pequeno e bastante visitado por historiadores. A Armênia tem paisagens naturais lindas, igrejas muito antigas e a visão que temos de toda a cidade de Yerevan do Monte Ararat. No começo foi difícil por costumes culinários, idioma e por em 2006 a cidade de Yerevan não ser tão desenvolvida como é hoje em dia. Está super moderna e oferece uma qualidade de vida ótima, facilitando adaptação, tanto com lazer e culinária variada".

No futebol, a Armênia possui resultados quase nulos em termos internacionais, já que tornou-se uma nação independente apenas em 1991. A primeira divisão nacional, que começou em 1993, conta apenas com 10 equipes. O maior campeão é o Pyunik, com 13 conquistas.

Já a seleção nunca conseguiu jogar uma competição de alto nível, como um Mundial, por exemplo. Algo que pode mudar em breve. A Armênia está na briga por uma vaga na Eurocopa. No Grupo J das Eliminatórias, ocupa a terceira colocação, atrás apenas da Itália e da Finlândia.


Restam apenas quatro rodadas para o fim da fase de grupos, e o país precisa tirar os três pontos de vantagem dos finlandeses. Neste sábado, a seleção armênia joga contra Liechtenstein.

"Seguimos com chances. Estão faltando quatro jogos para o término das Eliminatórias. Com certeza seria um sonho classificar a Armênia para uma competição europeia. Com certeza seria o auge para todos envolvidos e para o país", garante o brasileiro, que é um dos líderes da equipe.

Além da longa ligação com a Armênia, Marcos Pizzelli pode ser considerado um daqueles andarilhos da bola, já que atuou em outros sete países: França, Ucrânia, Rússia, Emirados Árabes, Grécia, Arábia Saudita e Cazaquistão.

Em 2018, ele foi o artilheiro da liga cazaque com 18 gols em 24 jogos pelo Aqtobe, onde virou ídolo, o camisa 10 e acostumou-se a carregar a faixa de capitão. Desempenho que lhe rendeu o prêmio de melhor jogador da temporada, superando Mkhitaryan, grande ídolo do futebol no país e até então no Arsenal, da Inglaterra.


"Na verdade, eu nunca me preocupei muito com isso. Apesar de sempre ter desempenhado bons anos na seleção, foi uma surpresa porque o Mkhitaryan é um atleta exemplo no país. Temos uma relação ótima, trocamos muitas ideias e sempre buscamos juntos melhoras para a seleção".

Com vários países no currículo e jogando pela seleção de um país europeu não tão badalado, Marcos Pizzelli admite carregar o rótulo de ser mais um andarilho brasileiro pelo mundo do futebol.

"Já rodei bastante. Podemos dizer que sou um andarilho da bola (risos). Creio que os meus momentos mais marcantes foram pela seleção armênia.  Como, por exemplo, ter tido a experiencia de jogar contra grandes seleções da Europa e ter feito um gol contra Portugal, que repercutiu muito", encerrou.

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